Conto levemente inspirado na obra “ A Mão do Macaco”, de W W Jacobs
Eleanor estava em choque. Achava que estava em um pesadelo e que logo ia acordar. Não acreditava que seu único filho, Richard, estivesse morto.
Quanto tempo imaginou sua adolescência, profissão, seus filhos e netos.
Ainda lembrava da dificuldade que teve para engravidar e manter a gestação até o final. O parto foi caótico: quase custou sua vida e a impossibilitou permanentemente de ter filhos
Por que não enfrentou Leopold, seu marido e pai de Richard, e se impôs contra a ida do filho naquela caçada?
Leopold, que sempre organizava este evento em sua casa de campo, dizia que seu filho tinha a obrigação de se destacar em caçadas. Não aceitava que o menino ficasse na barra da mãe.
Afinal, pensava ele, o garoto já contava com 12 anos e em breve teria responsabilidades de homem, dentre elas, ser o anfitrião de caçadas.
Quando todos voltaram e Richard não, o coração de Eleanor estremeceu. Sabia que algo estava errado. O garoto simplesmente sumiu, não foi visto e nem se juntou aos demais após o término da caçada.
Dois dias depois, a triste confirmação: um dos funcionários que participava das buscas encontrou seu corpo.
Ele havia se afastado do grupo, o cavalo se assustou com um tiro e ele caiu, batendo a cabeça em uma pedra e ficando inconsciente. Aí vieram os lobos. Ele nem sentiu, mas eles devoraram metade do seu corpo, deixando-o desfigurado.
Quando chegaram com Richard na carroça, Eleanor correu para vê-lo, mas foi barrada pelo marido, justamente pelo estado deplorável do corpo.
Ali mesmo ela gritou de dor, uma dor lancinante em seu peito e tudo que viu foi a escuridão.
O funeral foi realizado com o caixão fechado. O pai estava inconsolável, talvez com um resquício de culpa, mas Eleanor estava em transe.
Não se manifestava, não bebia, não comia. Ficou o tempo todo ao lado do caixão claro e luxuoso do filho.
O enterro foi no cemitério do vilarejo, no mausoléu da família. A despedida foi triste, combinando perfeitamente com o clima melancólico.
Eleanor só queria dormir e acordar deste pesadelo que a estava consumindo.
***
Três meses se passaram desde a morte de Richard. Leopold voltou para a cidade, para cuidar dos negócios da família. Eleanor ficou no campo. Não queria deixar Richard sozinho.
Ia todos os dias ao cemitério. Levava flores, chorava e ficava sentada por horas em frente ao mausoléu. Depois voltava para a casa, entrava em seu quarto e se entregava à tristeza, pedindo a Deus que a morte a reunisse com seu amado filho.
Uma tarde, enquanto estava visitando o filho, uma mulher misteriosa se aproximou dela.
Era bonita, de boa aparência e vestia negro. Não como luto, mas em um traje elegante e ao mesmo tempo imponente.
Tinha longos cabelos negros presos em um coque. O véu de renda preta ocultava parcialmente seus grandes olhos escuros. E o sorriso era uma mistura de beleza e mistério, com um toque sutil de algo maligno.
— É seu filho? — perguntou a mulher com uma voz doce, mas misteriosa.
— Sim — respondeu Eleanor. — Meu único filho. Morreu há 3 meses.
— Talvez você possa tê-lo de volta.
— Como? — respondeu Eleanor incrédula.
— Uma vida pela outra, uma criança pela outra. Acha que vale a pena?
Eleanor a olhou com surpresa, ameaçou responder, mas antes que saísse uma palavra, a mulher disse:
— Ótimo! Em uma semana nos vemos de novo aqui, neste mesmo horário. Te passarei as instruções.
A mulher se virou e nem deu tempo de Eleanor fazer perguntas. Ela simplesmente caminhou e desapareceu pelas lápides.
Eleanor estava tão assustada e surpresa com a proposta que não percebeu a fala “uma criança pela outra”.
Uma semana depois, Eleanor estava lá, não porque esperava a mulher, mas sim por sua rotina diária. Achava que o encontro com a mulher misteriosa fosse mera imaginação.
De repente ouviu atrás de si:
— Vejo que é pontual! Vamos às regras?
Eleanor se virou assustada. Então não foi imaginação. A mulher estava lá.
— Antes de começar, quero saber: faz qualquer coisa para ter seu garoto de volta?
— Si…sim…qualquer coisa — balbuciou Eleanor.
— Lembra do que disse? Uma criança por outra? Na sexta-feira, à meia-noite, você deverá trazer uma criança. Não importa idade, gênero ou cor. Traga a criança e seu filho voltará para vocês.
— Mas eu não posso — disse Eleanor — Não posso infligir essa dor a outra mãe!
— Tola! Você nunca mais terá filhos! Suas criadas passam a maior parte da vida delas grávidas. Uma criança a mais ou a menos não fará diferença!
— Mas…— Eleanor tentou argumentar
— Pense bem! É a sua última chance!
— Tudo bem! Verei o que faço.
— Meia-noite em ponto, ou nunca mais me verá.
Naquela noite Eleanor não dormiu. Ficou pensando na proposta da mulher misteriosa. Era tentadora, mas e os seus princípios e sua religiosidade? Isso era contra as leis divinas.
Mas ter Richard de novo em seus braços, era algo tentador. Ela pensou, pensou e viu que, realmente, suas criadas viviam grávidas. De repente, a estranha mulher tinha planos melhores para uma criança nascida pobre. Depois de pensar, tomou a decisão.
****
Na sexta-feira, à meia-noite, Eleanor saiu de casa sorrateiramente. Tinha pedido a Marie, uma das criadas que tinha uma criança de 3 anos, uma garotinha adorável, para dormir na casa principal. Acabou a convencendo a tomar um chá com sonífero e deu bombons “batizados” também com soníferos para a criança.
Embrulhou a menina em uma manta e rumou ao cemitério. Lá, em frente ao mausoléu, avistou a mulher.
Assim que chegou, ela disse:
— Vejo que tomou a decisão certa. Amanhã à noite terá seu filho de volta.
Ela tomou a criança dos braços de Eleanor antes que esta dissesse algo.
De repente, uma névoa densa tomou conta do cemitério. A mulher e a criança desapareceram.

No dia seguinte, a casa acordou em alvoroço. Marie deu falta da filha, sua caçula. Buscas por todos os lados e nada.
A criada chorava copiosamente e era consolada pelas demais. Mas Eleanor estava diferente. Uma onda de alegria a invadia. Pela primeira vez desde a morte de Richard, ela voltou a sorrir. Sua esperança de rever Richard era tamanha que nem sequer foi solidária à dor da mãe que perdeu sua filha.
Eleanor mandou todos os criados embora naquela noite. Deixou o quarto do filho preparado. Solicitou a cozinheira para fazer alguns quitutes de agrado do filho.
Sobre a cama, deixou uma roupa nova, para que ele se livrasse daquela que lhe serviu de mortalha.
Por volta de meia-noite, ouviu a porta da sala abrir e um som surdo, de algo se arrastando, algo assustador!
O coração de Eleanor acelerou. É ele! É o meu filho!
O som de arrasto iniciou pelas escadas e Eleanor foi ao seu encontro. Já imaginava abraçá-lo e afagar seus cabelos novamente.
Eleanor estava chegando próximo a escadaria quando viu a imagem, iluminada à luz das velas.
No topo da escada estava aquilo que um dia foi Richard. Metade do seu rosto estava extremamente pálido e com pequenas crateras, por onde se podia ver os vermes. A outra metade estava dilacerada, totalmente deformada. Um dos olhos estava branco, sem vida e o outro não existia mais.
As meias carcomidas mostravam as pernas se arrastando com ossos e poucos vestígios de carne. As mãos eram ossos e pedaços de carne caindo ao chão. O cheiro de decomposição inundou o ar.
A coisa soltou um som, parecido com “mamãe”, mas quase inaudível, provavelmente por falta de língua e cordas vocais.
Eleanor tentou correr mas ficou paralisada. O terror era tanto que não sabia no que pensar, nem mesmo que foi enganada pela mulher misteriosa.
O cadáver putrefato de Richard abriu os braços e caminhou para Eleanor. Em um impulso instintivo, ela tentou correr, mas tropeçou em um tapete e foi ao chão.
Aquilo que saiu da tumba se inclinou para a mãe e mostrou os dentes como se fosse um sorriso, mas era uma visão medonha, com a dentição exposta e os lábios carcomidos.
A coisa abraçou Eleanor com uma força sobrenatural e ela soltou um grito de extremo horror antes de apagar completamente.
No dia seguinte, os criados acharam a porta da casa escancarada e pegadas de terra, que pareciam ser de uma criança de 12 anos.
Eleanor tinha desaparecido e apesar das buscas, não foi encontrada. Leopold acreditou que a mulher se atirou ao lago e se afogou, dada a dor da perda do filho.
Mas o que ninguém sabia era que, no mausoléu da família, justamente no nicho em que jazia Richard, encontravam-se dois corpos: o de Richard, remexido, como se tivesse se movimentado e o de Eleanor, que permaneceu viva ainda por dois dias ao lado do cadáver reanimado do filho.
Do lado de fora, o mausoléu permanecia intacto, como se nada tivesse saído de lá.
Após sucumbir ao terror, Eleanor demonstrava uma expressão de medo e arrependimento.
Já Richard, pode finalmente descansar ao lado da pessoa que mais o amou na vida…e mais ainda na morte.


