O bloco do cemitério

Era um evento tão famoso que até jovens que já não moravam mais lá, voltavam para curtir a festividade.

Seus blocos coloridos, a alegria contagiante, a segurança de cidade pequena e a estrutura cuidadosamente montada eram o que diferenciavam o Carnaval de lá.

Todos os anos, os realizadores inventavam um bloco novo. Já teve bloco de tudo: de cores específicas, fantasias únicas e até misto de Carnaval com sertanejo.

Mas naquele ano, eles queriam algo que nunca tivesse sido feito antes. O resultado foi o Bloco do Cemitério. 

A mensagem deste bloco era comemorar a vida, portanto, eles queriam fazer algo semelhante ao Dia dos Mortos no México. Teria um trio elétrico tocando músicas alegres, confetes, balões, tudo o que os outros blocos tinham, só que tudo seria preto e roxo.

As fantasias deveriam também seguir esta paleta e precisavam remeter à morte. Assim, poderia ser maquiagens ou máscaras de caveiras mexicanas, caveiras normais e até mesmo a própria Morte. Zumbis também estavam valendo.

E para arrematar a temática do bloco, ele deveria sair na sexta-feira que antecede o Carnaval, à meia-noite em ponto. Ele sairia da praça principal e faria o trajeto comum de todos os demais blocos. A exceção seria que, às 3h da manhã, horário de término, ele finalizaria sua jornada bem na porta do cemitério.

A proposta deixou os jovens animados e muitos já pensavam em suas fantasias. No entanto, os mais velhos da cidade, juntamente com as comunidades religiosas, não compraram a ideia.

Alguns achavam que era sacrilégio. Outros achavam que era…perigoso.

Um grupo de ilustres moradores da cidade foi atrás do prefeito para tentar acabar com a ideia.  Porém, como bom político, ele disse que não podia ir contra a ideia, já que isso não representava perigo para a população.

Enquanto o impasse do bloco continuava, um grupo de amigas começaram a planejar suas fantasias. Elas estavam super animadas para participar do bloco e, como todo ano, estavam presentes nos blocos de estreias, com este não seria diferente.

Camila chegou em casa empolgada depois da aula, já pensando em sua maquiagem e buscando tutoriais na internet para fazer a make perfeita. Entre suas roupas, buscava trajes pretos e roxos que combinariam com o tema de caveira mexicana.

Sua mãe, ao ver aquilo a questionou sobre sua ida ao bloco.

— Que isso menina! Isso é pecado! Onde já se viu, misturar Carnaval com morte!

— Ah mãe, deixa de ser careta! Hoje isso está super na moda.

— Deus que me livre dessa moda! — disse a mãe saindo e fazendo o sinal da cruz.

A avó de Camila observava tudo da sala enquanto fazia seu crochê. De vez em quando levantava os olhos sobre os óculos para ver as duas conversando.

Camila se sentou ao lado da avó e aproveitou para reclamar da mãe com ela. A avó colocou agulha e linha no colo, retirou os óculos e começou:

— Filha, nada contra se divertir no Carnaval. Na juventude, eu mesma já aproveitei alguns bailes. Só que mexer com os mortos não é certo.

— Mas ninguém está mexendo com os mortos, vó! Vai ser só um bloco, como qualquer outro. A temática é que será diferente.

— Mas aí é que está o perigo, Camila. Você já ouviu aquela música que diz que “atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu?”

— Talvez…

— Pois bem, na verdade, atrás do trio vai quem também já morreu, sabia?

— Ah! Isso é lenda!

— Não é. Muitas pessoas que gostavam de Carnaval quando vivas, aproveitam a data para voltar e continuar na folia. Agora, imagine um bloco que fala de morte, com pessoas se vestindo de morte, saindo à meia-noite e que às 3h da manhã termina no cemitério. Ainda mais em sexta-feira 13. Com certeza não vai dar em boa coisa. Acho melhor você ficar em casa e sair no sábado.

— Relaxa, vó! Essas coisas não existem! Quem morreu, morreu!

Camila beijou sua avó no rosto e saiu rindo. A avó balançou a cabeça de um lado para o outro, preocupada.

Finalmente o dia do bloco chegou. Ele sairia na sexta-feira à meia-noite. As amigas de Camila foram arrumar na sua casa, porque era mais perto do local de saída do bloco. Quando chegaram, disseram que as ruas estavam lotadas e que muitas pessoas já estavam vestidas a caráter para o Bloco do Cemitério.

Com roupas prontas e maquiagens finalizadas com esmero, as meninas saíram para a rua. Faltavam quinze minutos para a meia-noite e todas rumaram para a praça principal. De longe, avistaram um grupo de pessoas que esperavam no local.

Ao se aproximarem, ficaram admiradas com as fantasias e maquiagens, Cada uma mais bem-feita que a outra. Apesar de terem gastado tanto tempo seguindo tutoriais e caprichado em suas maquiagens, sentiram uma certa vergonha do que fizeram, considerando as que viram.

Além de maquiagens, muitas pessoas usavam máscaras finas e requintadas, que provavelmente foram compradas em alguma capital.

Meia-noite em ponto, o bloco saiu. O trio elétrico à toda, todos dançando e a alegria se espalhando. Mas o interessante, é que a cada rua que o bloco virava, mais pessoas o acompanhavam. Camila ficou até espantada, não sabia que moravam tantas pessoas lá, mas achou que era gente de fora.

Quando deu 1h da manhã, o bloco estava lotado e começou a chover. As meninas, em vão, tentaram se cobrir, mas parte de suas maquiagens derreteram. Porém, ao observarem outras moças maquiadas do bloco, notaram que suas maquiagens estavam impecáveis. Alguns foliões usavam roupas que pareciam ter saído de fotografias antigas. 

Camila sentiu um frio na espinha, mas tentou afastar os pensamentos e continuou no bloco. Em determinado momento, observou que a música estava estranha. O ritmo continuava carnavalesco, porém mais lento, arrastado, com batidas graves que pareciam vir de muito longe, mas não sabia o que era.

Reconheceu um dos garotos da sua escola em meio ao bloco. Ele usava uma máscara que cobria metade do seu rosto e uma fantasia com estilo retrô. Ela sorriu para ele, que logo se aproximou .

— Gostei da sua fantasia! Muito legal! — disse ela.

— Tenho ela há um bom tempo. Já a uso há muitos Carnavais.

Camila achou estranho a colocação dele, afinal era tão jovem quanto ela e não sabia que ele curtia Carnaval, mas achou que era empolgação do momento.

De repente o trio elétrico silenciou por alguns segundos.

Não foi um apagão completo — apenas um intervalo estranho, como se alguém tivesse puxado o ar do bloco. O som voltou logo em seguida, mas não era mais a mesma música. Apesar de manter o ritmo de Carnaval, não era uma música ouvida sempre .

Camila sentiu o peito apertar.

— Que música é essa? — perguntou ao garoto.

Ele inclinou a cabeça, como se escutasse algo que ela não conseguia ouvir.

— A de sempre — respondeu. — Essa sempre toca quando chega a hora.

Camila franziu a testa.

— Não… essa eu nunca ouvi.

O garoto sorriu por baixo da máscara. Um sorriso assustadoramente calmo.

— É porque você nunca ficou até o final.

Antes que ela pudesse responder, alguém esbarrou forte em suas costas. Quando se virou para reclamar, deu de cara com um homem alto, vestido de terno antigo, daqueles que ela só tinha visto em fotos velhas da escola. O rosto dele era pálido, os olhos fundos, e a maquiagem… perfeita. Nenhuma gota de tinta escorrida, apesar da chuva que agora caía com força.

— Desculpa, moça — disse ele, com uma voz baixa e educada. — A rua anda ficando cheia nessa época.

Camila engoliu em seco.

— Nessa época?

O homem já havia se afastado, misturando-se à multidão.

Camila procurou pelas amigas. Estavam próximas, rindo, dançando, mas algo nelas parecia diferente. Os movimentos estavam mais lentos, repetitivos, quase mecânicos. Quando uma delas virou o rosto para Camila, ela teve certeza de que os olhos estavam…opacos.

— Vocês estão notando algo de diferente?

— Nada, tá tudo perfeito! Melhor ainda é aquela bebida que aquele cara trouxe. Ele nos deu um pouco e olha, deu ânimo pra gente!

Camila olhou e viu um homem jovem, vestido de pierrô. Ela notou que a fantasia era fora do contexto do bloco e que também estava um tanto quanto gasta.

A maquiagem de pierrô estava intacta e por trás da tinta branca do rosto, estava uma palidez quase sobrenatural.

Camila o observou por algum tempo e viu que ele tinha uma garrafa antiga de bebidas, muito bem trabalhada, mas em momento algum ele tomou o que tinha ali.

O homem deu um sorriso sinistro para Camila e ofereceu a garrafa para ela, que de pronto recusou. Desviou o olhar e tentou entender onde estavam.

— A gente já passou por essa rua? — perguntou Camila para o garoto de máscara, tentando soar casual.

— Já — respondeu o garoto. — Faz parte do trajeto.

Mais uma vez ela achou a fala dele estranha, pois nem sabia que ele gostava de Carnaval e nunca o tinha visto em outros blocos.

De repente, um arrepio percorreu sua espinha. Ela finalmente reconheceu a melodia. Não eram marchinhas de Carnaval. Eram marchas fúnebres tocadas em ritmo de festa. 

— Realmente, quem organizou este bloco queria deixar tudo sinistro, né? — disse Camila para o garoto, mais para se acalmar do que para conversar com ele.

— Sinistro? Está tudo lindo! Não acha esta alegria contagiante?

Camila sorriu nervosa e quando reparou no sorriso e na máscara do garoto, notou de relance uma mancha vermelha embaixo. Achou estranho, porque ele não tinha marcas no rosto.

Olhou no relógio e eram 02:30h. Faltava meia hora para aquilo acabar e ela estava se sentindo muito cansada. Olhou para as amigas logo atrás dela. Elas estavam estranhas, pareciam em transe e sorriam constantemente, um sorriso forçado, quase sobrenatural.

A marcha de Carnaval fúnebre estava à toda e a madrugada avançava. Quando estava se aproximando das 3h da manhã, o bloco entrou na rua de cemitério. Camila observou que alguns dos foliões estavam cambaleantes e que suas maquiagens começavam a demonstrar uma palidez etérea.

Quando o trio elétrico parou na porta do cemitério, o folião que estava conduzindo falou pela primeira vez. Uma voz gutural, que parecia ter saído das profundezas. Ele agradeceu a todos e disse que aguardaria ansiosamente a presença de todos no próximo ano. E ainda brincou: 

— Quem já morreu e quem ainda está vivo.

O garoto da máscara se aproximou de Camila e falou:

— Espero encontrar você aqui ano que vem, viva ou morta.

— Que bobagem! Amanhã tem outros blocos, nos vemos lá!

Ele olhou para ela com surpresa e beijou sua mão. Ela sentiu um frio sobrebrenatual que percorreu todo o seu corpo assim que o garoto pegou sua mão e encostou seus lábios nela.

O cansaço era tanto que ela nem reparou que logo a multidão se dispersou e nem reparou que o menino simplesmente desapareceu.

As meninas seguiram mecanicamente para suas casas. Ao entrar no seu quarto, Camila desabou.

No dia seguinte, ela acordou ao meio-dia, corpo dolorido e exausto. Pensou que poderia estar ficando doente, devido à chuva que tomou durante o bloco. Nem lembrava como chegou em casa, só que estava bastante cansada.

Resolveu sair um pouco para respirar ar puro e logo ao virar a esquina da sua casa, deu de cara com seu colega que encontrou na noite anterior.

— Oi! Aproveitou o bloco ontem? Nem vi você indo embora.

— Bloco? Como assim?

— O Bloco de Cemitério!

— Ah! Você não ficou sabendo? Cancelaram o bloco ontem por volta das 23h. Houve um tumulto com a comunidade, o prefeito e a organização. Disseram que era profano e tal, até mesmo porque era sexta-feira 13. Aí resolveram cancelar, mas acho é que ficaram com medo.

— Não estou entendendo! Cancelaram como? Eu estava lá, você estava lá!

— Euuu? Nem curto Carnaval! E ontem fui com meu irmão para outra cidade comprar umas coisas. Você está bem? Está pálida!

Camila saiu cambaleando, e foi direto para casa. Entrou em seu quarto ofegante e ligou para as amigas. Todas estavam doentes e duas delas tiveram que ir ao hospital. Parecia ser uma virose brava. Mas elas lembravam de ter ido ao bloco, começarem a dançar, mas depois disso, não lembravam de mais nada.

Camila ficou pensativa e distraída, tanto que não viu sua avó pedir licença para entrar em seu quarto.

— O que foi meu bem?

— Vó! O que a senhora me disse ontem é verdade? Sobre quem morreu ainda gostar de Carnaval?

— É sim, por isso temos que tomar cuidado.

— Vou te mostrar uma coisa.

Camila abriu a foto de seu colega e mostrou para a avó.

— A senhora conhece este garoto?

— Pelas roupas sei que não é ele, mas conheci alguém bem parecido. 

— Quem?

— Um rapaz que morava aqui e era um pouco mais jovem que eu. Foi uma tristeza quando morreu.

— O que aconteceu?

— Sofreu um acidente terrível. Ficou com parte do rosto desfigurado e precisou ser enterrado de caixão fechado. Mas era alegre… e apaixonado por Carnaval.

A avó observou a foto mais uma vez.

— Engraçado como são parecidos.

— Parecidos com quem?

— Com ele.

— Quem?

— O tio-avô do seu colega.

O bloco do cemitério a descoberta
Camila mostrou a foto para sua avó e descobriu que quem esteve com ela no Bloco do Cemitério foi o tio-avô do seu colega.

Naquela noite, Camila sonhou com música distante e passos arrastados.

Ao acordar, teve a estranha certeza de que, no próximo Carnaval, o Bloco do Cemitério sairia novamente.

E que, em meio à multidão, alguém usaria a mesma fantasia.

Não porque estivesse morto.

Mas porque nunca tinha ido embora.

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